aridez

E mesmo que depois de um ano eu olhe pela janela sem enxergar a paisagem, tomo suas sombras por familiar, talvez, não sei.

O que resta é a aridez das coisas. Crescer torres como se regam flores.

E se comover quando das sombras reconhecer que há sempre uma mesma luz que às vezes ousa verter da fresta da janela, da paisagem que não se vê, até um broto de verde qualquer.

cuidado

Dizem gostar do meu vestido de linho negro, de seus botões vermelhos às costas. Mas quem calça os rubros 15 centímetros que vão bem com ele sou eu. O brinco de pérolas, o lápis nos olhos, o esmalte nas unhas — espaço para a vaidade do que é meu. Anéis e perfumes dados por quem me conheceu.

Não sou dada a vaidades maiores que eu. Mas tudo leva a crer que uma menina não se basta com meia dúzia de palavras e três pequenos infernos à espreita.

Me enfeito para o espelho. E os botões vermelhos, que pendem às costas, não os alcanço com meus dedos.

conforto

O verão se desfaz, escondido, através das cortinas do quarto. Cada filete de luz tracejado sobre o colchão lembra-me a exata medida do fracasso.

Claridade esmaecida pelo cansaço.

Por que vestimos pijamas no inverno e dormimos abobados? É que a razão do sucesso está sobre pele de uma noite bem dormida. Se durmo, sonho com o fracasso, e ele me ameaça. E acordo para sentir o gosto de um café quente diário.

Reconfortante saber que é fim de março, mas que a água já ferve quente na chaleira.

(Winter blues me cai bem.)

desesperança

Ando agora pelas trilhas tortas da minha alvorada. Busco nas pessoas que me cruzam o caminho um pouco desta minha afonia autoindulgente. E, se encontro, não alvorece. O preço de um silêncio cúmplice é naufragar na impossibilidade do horizonte leste.

A vida é pouco além do reflexo do nascer do sol nos olhos tintos de quem me faz companhia. Um pouco além de quem me espera do outro lado desta trilha.

Conto os dias para um sorriso agreste. E perco a conta. E, se, discretamente, descrentemente, me mostrar os dentes, eu teso. Diálogo poderoso em silêncio.

E o que resta é o pouco provável.

improvável

saudade

E foi em setembro que ele deixou de se envolver com idéias e passou a se apaixonar por pessoas…

incerteza

Por que não te quedas a me desvendar? Eu não me escondo por trás da muralha da divina contemplação; por isso por que, de todos os homens, não te quedas a me desvendar?

Sou pouco comum ou diferente inteira. É tal o prazer de me ver assim tão derradeira, ora, por que se não a me desvendar? E se não devo, por que afinal não me nega? Por que presumiria que o óbvio te fascina?

Por que não me quedo a te desvendar? Se os teus olhos mal me preenchem de orgulho por serem assim tão oblíquos a me espreitar, como se eu fosse o chão em que tua máscara de porcelana se espatifa, como se eu fosse o reflexo fiel das suas incertezas, por que não me deixa te apurar?

Mas, ora, porque te observo não me rendo; assim me calo. De tão reticente, não me vês além do véu que te tolhe as ações e não te permite desvendar o que eu, na minha vã timidez, sequer tenho certeza. E assim permaneces, como permaneço, na certeza das constantes possibilidades.

saudade

Das sensações irrefreáveis, saudade é das contínuas. É de ficar aqui, permanente, num estado contemplativo de expectativa pelo que teima em não preencher esse vazio impenetrável. Saudade é de crueza abominável, porém tão singela e quieta, que me impede de escrever versos amargos.

É do tempo de uma viagem de dias, de horas, de minutos, ou de uma vida toda de chegadas. Saudade é o passaporte. Saudade é a carência de liberdade e a prisão perpétua mais confortável das memórias.

Saudade é uma cegueira sensorial, que não permite viver os toques e cheiros e cores e vozes –é tristemente se alegrar com o feitiço que emana de músicas, lugares e objetos.

Das eventualidades, saudade é a eterna premissa cabal com a certeza invariável do acerto. É a reconciliação plena de sentimentos antes afogados por uma mágoa desimportante qualquer. Saudade é uma miríade de finais felizes e vidas eternas além do arco-íris com gosto de pipoca salgada de lágrimas.

Saudade prescinde de futuro, mas não existe sem passado. Saudade é o amor sem planos, é meia-noite sem amanhã, é o bocejo sem o sono. É a vontade sem o sonho.

Saudade é só. É sede de quem sente mais.



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