Das sensações irrefreáveis, saudade é das contínuas. É de ficar aqui, permanente, num estado contemplativo de expectativa pelo que teima em não preencher esse vazio impenetrável. Saudade é de crueza abominável, porém tão singela e quieta, que me impede de escrever versos amargos.
É do tempo de uma viagem de dias, de horas, de minutos, ou de uma vida toda de chegadas. Saudade é o passaporte. Saudade é a carência de liberdade e a prisão perpétua mais confortável das memórias.
Saudade é uma cegueira sensorial, que não permite viver os toques e cheiros e cores e vozes –é tristemente se alegrar com o feitiço que emana de músicas, lugares e objetos.
Das eventualidades, saudade é a eterna premissa cabal com a certeza invariável do acerto. É a reconciliação plena de sentimentos antes afogados por uma mágoa desimportante qualquer. Saudade é uma miríade de finais felizes e vidas eternas além do arco-íris com gosto de pipoca salgada de lágrimas.
Saudade prescinde de futuro, mas não existe sem passado. Saudade é o amor sem planos, é meia-noite sem amanhã, é o bocejo sem o sono. É a vontade sem o sonho.
Saudade é só. É sede de quem sente mais.